A Mobilidade Profissional Internacional

Tenho participado e devo dizê-lo com todo o gosto, na qualidade de júri/mentor, em algumas edições do designado Pitch Bootcamp, atividade que tem sido desenvolvida em algumas das nossas mais prestigiadas universidades com o intuito de apoiar os estudantes na estruturação dos seus objetivos profissionais e na forma de os tornar atrativos para potenciais empregadores e/ou investidores. Numa destas sessões recebemos uma finalista da licenciatura em gestão que colocou com determinação uma miniatura de um avião sobre a nossa mesa e com uma frase assertiva disse: “Desejo seguir uma carreira internacional”. Quase em uníssono nós jurados retorquimos: “Ótimo! E o que está a fazer para viabilizar esse seu desejo?” Aqui a resposta revelou-se titubeante: “Bem… tenho-me dedicado essencialmente ao estudo e depois da licenciatura verei que oportunidades aparecem…” Com o decorrer da conversa fomos percebendo que tinha apenas conhecimentos rudimentares da língua inglesa, que não tinha realizado nenhum Erasmus e que não possuía qualquer vivência internacional mesmo de lazer (férias).

A carreira internacional era considerada, num passado não muito longínquo, uma opção a que um reduzido número de profissionais de empresas multinacionais, também elas em número limitado, podiam aceder, disponibilizando-se a expatriar-se para um ou vários países por opção pessoal, aproveitar oportunidades ou por necessidades das próprias empresas. Hoje, com o fenómeno da globalização, as empresas são cada vez mais multinacionais ou transnacionais e, mesmo quando não estão fisicamente implantadas pelo mundo, estão universalmente disseminadas pelo ciberespaço e os seus negócios ou produtos já não são exclusivamente destinados a consumidores dos seus países de origem.

Esta realidade vem diluindo a dicotomia entre carreiras nacionais e internacionais. Para não dizer que as carreiras hoje são tendencialmente internacionais, já que a situação atual não é confinável à restrita amplitude do conceito de carreira internacional, prefiro dizer que vivemos num contexto de mobilidade profissional internacional. Há no entanto que distingui-la do êxodo rural que nomeadamente a partir dos anos 50 do século passado foi responsável pela deslocalização maciça para as cidades ou para a América do Sul e África e nos anos 60/70 para a Europa. A mobilidade do século XXI tem no seu cerne uma disponibilidade para trabalhar num contexto internacional que pode passar por expatriações permanentes ou temporárias, deslocações de tempo variável a outros países ou simplesmente por trabalho em contexto internacional tomando partido das possibilidades proporcionadas pelos vários canais disponíveis na internet.

A última variante de mobilidade profissional internacional é a que vem crescendo de uma forma mais exponencial e aquela em que se vislumbra maior potencial de desenvolvimento, sendo hoje bastante corrente “trabalhar-se para o mundo” mesmo sem recurso a expatriações ou usando apenas deslocações mais ou menos frequentes. Só a título de exemplo o português Filipe Carvalho acaba de ganhar a partir do seu escritório em Lisboa o Emmy (o equivalente aos Óscares do cinema para programas e profissionais de televisão) do melhor genérico para a série Couterpart. Existem por outro lado empresas que desenvolvem projetos de elevada tecnologia para todo o mundo a partir de localidades no interior de Portugal como a Outsystems (Proença-a-Nova) ou a Altran (Fundão), fixando aí centenas de profissionais altamente qualificados. Trabalhar em Lisboa, Porto, Paris, Roma, Berlim ou até Pequim deveria hoje ser percecionado com a normalidade de quem já é de Jure cidadão europeu e de facto cidadão do mundo.

Esta nova realidade profissional requer à generalidade dos profissionais dos nossos dias muitas das competências que no passado eram exigidas apenas àqueles que enveredavam pelas referidas carreiras internacionais. Assim se explicam as questões que colocamos à aluna com que iniciei este artigo e que vão no sentido da valorização de experiências de trabalho, estudo ou mesmo de lazer vividas em contexto internacional. Estas experiências permitem uma aculturação facilitadora da remoção de preconceitos, da procura de afinidades e mesmo da aquisição de uma empatia cultural tão necessária à construção deste novo tipo de perfil profissional. Neste contexto o conhecimento de línguas, que vai para além da quase universal língua de trabalho, o inglês, é um fator decisivo enquanto facilitador ou mesmo pedra angular da referida aculturação.

Faz consequentemente pouco sentido, neste contexto, os lamentos, por vezes dirigidos pela batuta de responsáveis políticos, relativamente aos que partem em busca de melhores condições de trabalho, valorização profissional ou simplesmente da vivência de novas experiências. Poderá, também, considerar-se contraproducente a divulgação de intenções facilitadoras do repatriamento daqueles que partiram mesmo quando não passam de soundbites sem qualquer expetativa de obtenção de resultados práticos. Ao invés são de aplaudir todas as medidas que facilitem não só a fixação de profissionais mas também a atração de cidadãos de outras nacionalidades. A captação de projetos diferenciadores, como o Centro de Investigação e Tratamento do Cancro do Pâncreas que a Fundação Champalimaud acaba de conseguir com o apoio de mecenato espanhol e o reforço dos programas Erasmus e da captação de alunos estrangeiros pelas universidades portuguesas são medidas que contribuem de forma decisiva para a desejada internacionalização do mercado de trabalho.

 

 

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Adelino Cardoso

Doutor em Ciências Empresariais, Mestre em Gestão de Marketing e Licenciado em Psicologia, Consultor, Formador e Professor do Ensino Superior.

É autor dos livros: Atração, Seleção e Integração de Talentos; Recrutamento & Seleção de Pessoal; O Comportamento do Consumidor – Porque é que os consumidores compram; e À Conquista do Emprego, publicados pela Editora LIDEL.

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